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Cláudia de Lemos: uma voz fundante na linguística brasileira

Magda Wacemberg Pereira Lima Carvalho – SEE/PE
Giovane Fernandes Oliveira – UFPel
Membros do Grupo de Pesquisa em Aquisição de Linguagem (GPAL/Unicamp/CNPq)

Cláudia Thereza Guimarães de Lemos (1934-2026), natural de Campinas/SP, graduou-se em Letras Clássicas (1953-1956) pela Universidade de São Paulo (USP) e doutorou-se em Linguística (1972-1975) pela University of Edinburgh. Sua tese de doutoramento, orientada por John Lyons, versou sobre a aquisição dos verbos “ser” e “estar” no português brasileiro.

De volta ao Brasil, no final dos anos 1970, ingressou como docente na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde fundou o Projeto de Aquisição da Linguagem no então nascente Instituto de Estudos da Linguagem (IEL). Um dos primeiros projetos oriundos das ciências humanas a receber apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e um dos marcos inaugurais do campo da aquisição da linguagem no Brasil, o Projeto de Aquisição da Linguagem do IEL/Unicamp contou, em sua fundação, com Maria Fausta Pereira de Castro, Rosa Attié Figueira, Ester Miriam Scarpa e Maria Cecília Perroni.

No âmbito do projeto, montou-se um grande banco de dados, com “corpora” de cinco crianças, acompanhadas semanalmente do primeiro aos cinco anos, em sessões naturalísticas, durante as quais eram gravadas interagindo com a mãe, com outros familiares e com uma ou duas das investigadoras. Esse volumoso acervo tornou-se, nos anos seguintes, a base empírica de importantes estudos sobre distintos aspectos da fala da criança – prosódicos (Scarpa), morfossintáticos (De Lemos, Figueira), narrativos (Perroni), argumentativos (Pereira de Castro).

Em termos históricos, a obra de Cláudia de Lemos é marcada por três grandes momentos.

Em um primeiro momento, durante a década de 1980, em interlocução com a psicologia do desenvolvimento (Piaget e Vygotsky), a pesquisadora introduz a noção de “processos dialógicos” (especularidade, complementaridade e reciprocidade) em uma tentativa inicial de descrever e de explicar a passagem de “infans” a falante.

Em um segundo momento, no início da década de 1990, afastando-se da psicologia do desenvolvimento e filiando-se tanto à linguística estrutural (Saussure e Jakobson) quanto à psicanálise (Lacan), De Lemos propõe os “processos metafóricos e metonímicos” como mecanismos de mudança na trajetória linguística da criança.

Em um terceiro momento, a partir do final da década de 1990, a linguista torna-se também psicanalista e delineia a proposta das “três posições” da criança em seu vir a ser falante: a) a primeira posição, em que a fala infantil incorpora fragmentos da fala materna, o que mostra a alienação da criança relativamente à mãe ou a quem exerce a função materna; b) a segunda posição, em que erros tanto previsíveis quanto imprevisíveis irrompem na fala da criança, o que dá a ver a sua separação da fala do outro e a sua alienação ao funcionamento da língua; (c) a terceira posição, em que o sujeito se divide entre a instância subjetiva que fala e a instância subjetiva que escuta a sua fala como a fala de um outro, o que dá lugar a hesitações, autocorreções e reformulações, bem como a efeitos performativos a exemplo da ironia, do humor, do narrar e do argumentar.

Conhecida inicialmente como “sociointeracionismo”, a perspectiva teórica introduzida por Cláudia de Lemos no campo da aquisição da linguagem passou a ser chamada apenas de “interacionismo”, “interacionismo brasileiro” ou, ainda, “interacionismo estrutural” – mudança de nome que diz das mudanças epistemológicas e teóricas que marcam a trajetória da pesquisadora, assim como mudanças linguísticas e subjetivas marcam a trajetória da criança.

Transversal à sua obra é a atitude crítica relativamente a estudos tanto seus quanto dos pares, do que dá testemunho a sua insistente argumentação contra questões centrais do campo da aquisição da linguagem, como as noções de “desenvolvimento linguístico” e de “consciência metalinguística”, como a aplicação de categorias da língua constituída para analisar a fala em constituição e como o não reconhecimento da língua enquanto terceiro na relação criança-outro.

Em 2025, foi aprovada por unanimidade, pelo Conselho Universitário da Unicamp, a concessão do título de Professora Emérita – a mais alta honraria outorgada pela instituição – à professora Cláudia de Lemos, aposentada do IEL/Unicamp desde o final dos anos 1990.

Além da aquisição, a estudiosa igualmente se voltou para outros campos e temas, como a obra saussuriana, a relação linguística-outras ciências, a relação língua-discurso, a poética e a psicanálise. Nessa direção, destaca-se a sua participação como membro fundadora do Centro de Pesquisa Outrarte – Psicanálise entre ciência e arte, voltado à reflexão sobre a linguagem à luz da psicanálise.

Contudo, foi a originalidade de sua teorização acerca do percurso linguístico da criança que impulsionou diferentes pesquisas que a ela se filiaram, as quais demonstraram a fecundidade dessa teorização, por exemplo, na abordagem de questões epistemológicas e metodológicas (a partir dos trabalhos de Maria Teresa G. de Lemos, Glória Carvalho, dentre outros), na investigação da escrita inicial (a partir dos trabalhos de Sonia Borges, Zelma Bosco, Claudia M. Campos, Cristóvão G. Burgarelli, Magda Carvalho, dentre outros) e na proposição da clínica de linguagem (a partir dos trabalhos de Maria Francisca Lier-DeVitto, Lúcia Arantes, Lourdes Andrade, Suzana Fonseca, dentre outras).

Tais exemplos atestam que a teorização inaugurada por De Lemos não se limitou ao estudo da fala da criança no vir a ser falante, mas foi além. Seu legado pode ser observado em trabalhos de pesquisadores que continuam refletindo sobre “língua”, “fala”, “escrita”, “sujeito”, “outro”, “interação”, “mudança”, dentre outras noções apresentadas por Cláudia de Lemos ao longo de sua trajetória e que nos permitem encontrar respostas – ou lançar questões – acerca da linguagem da criança, a qual, devido ao seu “estatuto de enigma” (termo de Maria Teresa G. de Lemos), continuará a interrogar o investigador.


Este texto é uma versão adaptada para redes sociais de verbete sobre Cláudia Thereza Guimarães de Lemos a ser publicado no “Dicionário de Linguistas da Abralin”.

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