Elaine Pereira Andreatta
Orientador(a): Daniela Palma
Doutorado em Linguística Aplicada - 2024
Nro. chamada: TESE DIGITAL - An25n
Resumo: A história das mulheres no espaço privado e público aponta para subalternidades entrecruzadas e para uma trajetória de silenciamento que reafirma diversas exclusões a que foram submetidas. Isso se agrava quando mulheres estão privadas de liberdade, assumindo todas as consequências sociais provenientes desse isolamento. De modo a problematizar o encarceramento feminino, esta pesquisa tem o objetivo de analisar narrativas autobiográficas de mulheres em privação de liberdade, buscando entender como tais práticas discursivas revelam dinâmicas de memória, considerando processos de exclusão, de estigmatização e de resistência presentes em suas trajetórias de vida. A pesquisa se justifica pelo seu caráter social, político e educacional, pois levantamos a hipótese de que a prisão, com suas estruturas de poder, sequestra não só a liberdade, mas promove silenciamentos desses sujeitos, inibindo discursos de resistência. O suporte teórico articula conceitos do campo da linguagem, das perspectivas de estudos da narrativa e de performances, especialmente inseridos no campo da antropologia linguística e da sociolinguística interacional; as concepções de memória e identidade; além das discussões em torno do encarceramento. Para tanto, a construção de dados se deu por meio de oficinas de leitura e escrita com produções de gêneros autobiográficos orais e escritos, realizadas no Centro de Detenção Feminino de Manaus-Amazonas, com 19 mulheres privadas de liberdade, durante três meses e meio. Sendo uma pesquisa qualitativa interpretativista e de cunho etnográfico, procurou-se descrever e interpretar práticas discursivas a partir de dois movimentos de análise: o primeiro se preocupa com a interpretação dos significados sociais e metafóricos em um olhar ampliado, avaliando-se pontos de vista das interlocutoras; o segundo segue uma linha de microanálise de investigação, dando ênfase ao significado das formas de envolvimento das pessoas como sujeitos de discurso, a fim de analisar a memória como atividade central na fabricação das subjetividades e identidades, mediante a compreensão das interações, dos modos de enunciar, da natureza performática das narrativas e da trajetória dos textos em diferentes gêneros discursivos. Diante desse processo, observou-se que as narrativas autobiográficas das mulheres em privação de liberdade, ao serem ouvidas/lidas, expressam diversas camadas de exclusão e estigmatização em suas dinâmicas da memória, mas também mobilizam a busca de uma voz própria para imprimir práticas de resistência e de sobrevivência. Nas histórias dessas mulheres, o caráter autorreflexivo dos enredos contribui para que os significados produzam rupturas fundamentais, abrindo espaço para uma leitura plural em suas performances narrativas. Ao desdobrá-las, suas particularidades são capazes de ancorar a constituição de coletividades, já que a memória reverberada estabelece um jogo entre tempo e espaço, considerando o correr dos dias dentro e para além dos muros da penitenciária. Nesse movimento, deixam-se entrever táticas para a manutenção da vida e estratégias de resistência e sobrevivência diante das violências e dos processos de exclusão e de estigmatização vivenciados.
Palavras-chave: Memória; Mulheres - identidade; Narrativas; Performance; Prisão


