UNICAMP Projeto SEMA$Oma

Centro de Pesquisa Outrarte: estudos entre psicanálise e arte
Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas
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Apresentação

     O projeto SEMASOMa busca uma articulação da teoria psicanalítica com os estudos linguísticos desenvolvidos no campo da ciência que toma a língua como objeto. Um dos pontos que balizam esse trabalho se encontra em Lacan no texto Radiophonie: “A Linguística entrega o material da análise, o aparelho no qual ela opera. Mas, um domínio não se domina senão de sua operação. O inconsciente pode ser, como disse, a condição da Linguística. Esta não tem portanto, sobre ele, a menor tomada”.

     O Projeto visa a trabalhar a articulação da Psicanálise com a produção de saber no campo da ciência da língua, especialmente os estudos dedicados à aquisição da linguagem. Necessariamente, a visada quanto às teorias da ‘aquisição da linguagem’ vai ser diferente, uma vez que a Psicanálise coloca em jogo na constituição do sujeito aquilo mesmo que a ciência recusa. Como vemos isso? A noção de Outro nas teorias de aquisição está referida apenas à dimensão de um Outro interpretante/da significação, não afetado pelo funcionamento no circuito pulsional regrado pela dialética do desejo. O Outro nessas teorias, que é necessariamente incluído, não comporta a dimensão do que escapa ao próprio funcionamento da linguagem.

     A pergunta básica que tem dirigido as nossas reflexões é a seguinte: como o simbólico se insemina no real do corpo? Note-se que “inseminar” contem sema. Daí o nome Sema-Soma, fazendo ressonância ao esquema que Lacan constrói no seminário 11 para dar conta dos processos de constituição subjetiva: alienação e separação, onde indica o campo do ser/sujeito e o campo do sentido/Outro, que se articulam pela falta. Como pensar esse processo de captura da criança na/pela linguagem, que as teorias linguísticas descrevem, fazendo aí incidir o apelo à dimensão do gozo? O projeto apresenta uma reflexão que incide nesse lugar preciso. O que permite a captura do vivo na rede simbólica não pode ser outra coisa do que aquilo que a própria linguagem secreta, como efeito, nesse outro que sustenta o lugar de agente materno, ou seja, a sua condição desejante regrada por um funcionamento em torno do objeto da pulsão. Se a pulsão se define como os efeitos da linguagem sobre o corpo, então é justamente o que sobra desta operação significante – o objeto a – que vai agenciar o enlaçamento de um organismo no simbólico.

     É preciso partir aqui da definição de discurso como o que faz laço social, para se pensar o enlaçamento do infans pelo Outro. O discurso afeta o indivíduo vivo na medida mesma em que o determina como objeto. Partimos, então, do fato de que o que tece uma comensurabilidade possível entre materialidades heterogêneas (significante e real do organismo) é o discurso: o incorporal do discurso toca o corpo, pela via do gozo do Outro. Portanto, é quando consideramos a dimensão do objeto da pulsão na estrutura discursiva que fica possibilitado sair da dicotomia excludente corpo e simbólico, com a qual se debatem as teorias sobre a aquisição da linguagem. Tomamos então a dimensão do objeto voz como o que faz borda entre significante e corpo.